Entrevista com José Casanova,
membro da Comissão Política do PCP

«É indispensável <br>guardar a memória dos tempos sombrios»

Em entrevista ao Avante!, José Casanova, da Comissão Política do PCP, fala da necessidade de lembrar os crimes do fascismo e o papel dos comunistas na resistência. Considerando estar em curso uma grande operação de revisão da história, o dirigente comunista afirma que esta se integra na ofensiva mais geral do capitalismo e do imperialismo, que recorre a práticas antidemocráticas e fascizantes para impor o seu domínio.

Dossier Nos 70 anos do Campo de Concentração do Tarrafal

Avante! - Qual a importância de, 70 anos depois, lembrar a abertura do Campo de Concentração do Tarrafal?

José Casanova – Essa importância decorre, em primeiro lugar, da necessidade, que a situação actual infelizmente justifica, de lembrar o óbvio: que houve fascismo em Portugal, que «fascismo nunca mais», e que a criação e a existência do Campo de Concentração do Tarrafal, constituiu uma das mais evidentes expressões do carácter repressivo e terrorista do regime que durante quase meio século tiranizou o povo português.
Em segundo lugar, trata-se de prestar uma sentida e mais do que justa homenagem aos homens que durante dezanove anos, fiéis aos seus ideais, resistiram ao terror fascista no Campo da Morte Lenta, em muitos casos dando as suas vidas nesse acto de resistência heróica.
Nós temos caracterizado, justamente, o Tarrafal como o espelho do regime fascista. Com efeito, a criação e o funcionamento do Campo da Morte Lenta expressam de forma iniludível a barbaridade e a hipocrisia do regime fascista. Como é sabido, o Campo foi criado em Abril de 1936 e inaugurado em Outubro desse ano com a chegada da primeira leva de 152 presos.

Precisamente na altura em que a Alemanha nazi abria também os seus campos de concentração…

Estamos a falar de um tempo em que o fascismo avançava na Europa, Hitler preparava as condições para levar por diante o seu plano de domínio do mundo, o fascismo imperava na Itália de Mussolini e Franco iniciava o levantamento fascista que viria a derrubar o governo da Frente Popular e a instaurar o fascismo em Espanha. Estamos a falar, igualmente, de um tempo em que, no nosso País, Salazar consumava o processo de fascização do Estado, um processo que fora minuciosamente pensado e sistematicamente aplicado e que, tendo como base e ponto de partida essencial a constituição fascista aprovada em 1933, integrava um conjunto de medidas de ordem económica, política, social e ideológica, naturalmente, repressiva, com a criação dos meios e instrumentos de repressão sem os quais o regime fascista não poderia sobreviver.
É neste quadro que o Campo de Concentração do Tarrafal é criado e para lá são enviados os primeiros presos em Outubro de 1936. As prisões até aí existentes já não comportavam o volume de presos vítimas da repressão mas, para além disso e não menos importante, o fascismo tinha necessidade de criar uma prisão especial, que tivesse condições para nela encerrar e liquidar, silenciosamente, muitos dos mais destacados resistentes antifascistas. E é com esse objectivo que o Campo da Morte Lenta é criado e ali chegam, faz agora setenta anos, os primeiros presos.
Nessa primeira leva, encontram-se muitos dos protagonistas da revolta dos marinheiros ocorrida em Setembro desse mesmo ano, bem como vários dos participantes na revolta da Marinha Grande, de 18 de Janeiro de 1934. Entre os 152 resistentes que inauguraram o Campo da Morte Lenta, a maioria dos quais é composta por militantes e simpatizantes comunistas, encontram-se destacado dirigentes do PCP, nomeadamente o secretário-geral do Partido, Bento Gonçalves, Sérgio Vilarigues, Alfredo Caldeira.

O Partido vem insistindo desde há muitos anos na necessidade imperiosa de preservar a memória da resistência. Porquê?

Num tempo em que se procede a uma forte operação de branqueamento do fascismo que chega ao ponto de negar a existência da ditadura que durante quarenta e oito anos oprimiu o nosso País e o nosso povo, é indispensável guardar a memória desse tempo sombrio, lembrar aos que o viveram o que ele foi e alertar as jovens gerações para essa realidade terrível. Não se trata, ao contrário do que dizem os que tudo fazem para que o fascismo seja esquecido ou menorizado, de saudosismo ou de passadismo. Trata-se, isso sim, de lembrar que durante quase meio século o nosso País sofreu as consequências de um regime em que as liberdades eram totalmente proibidas e ao qual houve quem ousasse resistir, assumindo todas as consequências dessa atitude. Trata-se, ainda, de sublinhar que o Partido Comunista Português, os militantes comunistas foram os grandes impulsionadores dessa resistência, que encabeçaram desde o primeiro dia da ditadura e à qual atraíram antifascistas de outras áreas e correntes políticas e ideológicas.
E que essa postura resistente dos comunistas não decorreu de qualquer predestinação nem de heroísmos individuais de filme de aventuras, antes foi um facto natural, uma resultante colectiva da força e da determinação dos seus ideais de liberdade, de justiça social, de solidariedade, de fraternidade. Então, preservar a memória dessa resistência constitui uma necessidade imperiosa para a compreensão desse tempo de opressão e repressão, e constitui igualmente um elemento imprescindível para a compreensão do tempo que hoje vivemos, também ele difícil e complexo, também ele colocando-nos imperativas exigências de resistência e de luta, diferentes, sem dúvida, das existentes há setenta anos, mas não absolutamente diferentes.

Negando-se o fascismo,
nega-se a resistência


O termo «fascismo» quase que desapareceu do discurso mediático e a figura de Salazar vem sendo recuperada, como o revela o museu que vai abrir em Santa Comba Dão…

Dizes «quase que desapareceu» mas não seria exagero dizer que desapareceu. Vimos ainda recentemente, a propósito do centenário de Marcelo Caetano: páginas e páginas de jornais transformando o ditador fascista numa espécie de herói nacional e sem que a palavra «fascismo» fosse escrita. Aliás, as expressões «Estado Novo» e «Anterior Regime» passaram definitivamente a ser utilizadas pela generalidade dos historiadores, analistas e politólogos de serviço à revisão reaccionária da história e à revisão contra-revolucionária da história das revoluções, para fugirem à verdade histórica e imporem a mentira e a falsificação, para esconderem a existência do fascismo, para ocultarem o papel dos comunistas na resistência, para atacarem a revolução de Abril e as suas conquistas históricas que liquidaram o regime fascista e os seus sustentáculos económicos.
É nessa mesma linha que se procede à recuperação da figura sinistra de Salazar que, um dia destes, ainda vai ser «eleito»… Aliás, não foi o Dr. Mário Soares que, aqui há uns anos, entrevista à SIC, disse que Salazar não era fascista?...
Tudo isso se insere na colossal operação de branqueamento do fascismo, operação que, repito, passa pela negação da sua existência e visa silenciar a resistência antifascista.

O Comité Central, na sua última reunião, alertou para a necessidade de combater o «branqueamento do fascismo e a usurpação da memória da resistência». De que branqueamento estamos a falar?

É necessário lembrar que o nosso Partido tem combatido essa operação de branqueamento do fascismo em todas as suas vertentes desde que ela surgiu, alertando para os perigos que comporta e para as suas principais linhas e denunciando os seus objectivos, a começar pelo de, branqueando a ditadura, condenar a revolução de Abril. Uma das mais relevantes linhas desse branqueamento é a que «descobriu» que em Portugal não houve fascismo, não houve uma ditadura fascista. Alguns, magnânimos, admitem que, quanto muito, terá havido um «regime autoritário», mas logo outros corrigem, substituindo essa expressão por «autoritarismo paternalista», de facto muito mais branqueadora.
Outra vertente dessa ofensiva de branqueamento do fascismo consiste, mesmo, na consideração da legalidade do «anterior regime», congeminada a partir da invocação do artigo 8.º da Constituição fascista que, democraticamente, inscrevia os direitos e garantias individuais dos portugueses, entre eles o direito à liberdade de expressão de pensamento e a liberdade de reunião e associação.

Quem afirma isso sabe que mente…

É claro que quem tais argumentos usa, sabe que está a espezinhar brutalmente a verdade; sabe que nenhum destes direitos apregoados pelo regime fascista era cumprido e todos eram todos os dias ignorados e violados. O branqueamento tem passado, também, pela ocultação, o silenciamento e o desmentido sobre os mais graves crimes da PIDE, nomeadamente os assassinatos no Campo de Concentração do Tarrafal e as torturas que, em não poucos casos, provocaram a morte de presos. E é sintomático que os branqueadores actuais do fascismo, estas lavadeiras salazarentas mascaradas de democratas, para «demonstrar» que não houve tortura, recorram ao palavreado dos ditadores Salazar e Caetano que diziam que «as torturas não passavam de uma invenção dos comunistas».
Como é evidente, seguindo este método, os referidos historiadores, ideólogos e politólogos, pretendem matar dois coelhos com uma só cajadada: negando a existência do fascismo e o seu carácter opressivo e repressivo, «provam» que a resistência não existiu.
Por outro lado, temos assistido, ultimamente, a um outro tipo de intervenção nesta área: a dos que, em muitos casos tendo abandonado o campo onde, no passado, exerceram a resistência, se apresentam, agora, armados em guardiães dessa resistência como se ainda lá estivessem, e são, por isso, muito acarinhados e apaparicados pela comunicação social dominante.

Guerra, tortura, perseguição dos resistentes
O carácter fascizante
da «nova ordem» imperialista


Essa operação de branqueamento poderá ter a ver com as práticas antidemocráticas e fascizantes que regressam, por todo o mundo, e nomeadamente no chamado mundo desenvolvido?

Tem tudo a ver com tudo. Branquear o fascismo, por um lado, e, por outro lado, fazer aprovar leis de conteúdo fascizante e levar por diante práticas de autêntico afrontamento da democracia, são duas linhas complementares visando os mesmos objectivos. A ilegalização da Juventude Comunista da República Checa e as razões que a suportam, são da família das decisões dos EUA em matéria de tortura; são da família das recentes tentativas de criminalização do comunismo vindas do Conselho da Europa, na sequência de uma intensa e amplamente difundida ofensiva ideológica visando denegrir e criminalizar as tentativas de construção de sociedades socialistas na URSS e em vários outros países, visando apagar da memória dos povos a revolução de Outubro, ponto de partida para a construção daquele que foi o período mais luminoso da história da humanidade.
E é a essa mesma família antidemocrática e com traços cada vez mais acentuadamente fascizantes que pertencem as leis dos partidos e do seu financiamento aprovadas em Portugal pelos partidos da política de direita, bem como as constantes e crescentes limitações ao exercício das liberdades democráticas, a repressão no interior das empresas e a ofensiva contra as organizações e activistas sindicais, as leis eleitorais, enfim, todas as práticas e medidas que têm como alvo o conteúdo democrático do regime saído da revolução de Abril e que são prática corrente dos governos PS e PSD…

Podemos inserir tudo isto se na ofensiva mais geral do capitalismo…

… E tudo isto está intrinsecamente ligado às profundas alterações ocorridas no mundo desde os finais dos anos 80 com o desaparecimento da União Soviética e da comunidade socialista do Leste da Europa. De então para cá, tudo mudou e tudo mudou para pior. No mundo unipolar que daí resultou, o imperialismo passou a ser a força claramente dominante e passou a mostrar a sua verdadeira face. A «nova ordem imperialista de cariz totalitário», assim a temos, justamente, caracterizado, definiu um conceito de democracia e de liberdades democráticas concebido à medida dos seus interesses e objectivos.
Para o impor à escala planetária vale tudo: a invasão e ocupação brutais de países que se lhes opõem, mesmo que tenham que fazer desses países gigantescos cemitérios povoados por centenas de milhares de mortos; a pressão e chantagem suportadas no poderio militar ou económico, enfim, tudo o que o governo dos Estados Unidos da América considere necessário para os seus interesses imperialistas e para impor o seu domínio mundial.

Isso vê-se hoje, na chamada «guerra contra o terrorismo»…
A chamada luta contra o terrorismo é um exemplo da hipocrisia e dos perigos que hoje pesam sobre a humanidade: trata-se do país que é o maior centro de terrorismo do planeta arvorado em justiceiro do terrorismo, praticando o terrorismo e dizendo que está a combatê-lo. E invocando o terrorismo de que é o mais brutal praticante para aprovar leis antidemocráticas e fascizantes, limitadoras das liberdades, direitos e garantias dos cidadãos.
Nos tempos actuais, o conteúdo antidemocrático e fascizante da acção externa e interna dos Estados Unidos da América e a propagação dessa acção para os governos seus marionetes, constitui uma ameaça terrível para a democracia e para a liberdade. É como que o ovo da serpente preparando o caminho para regressos a sombrios e tenebrosos passados. E a luta contra esses perigos coloca-se, hoje, como uma questão primordial para todos os democratas de todo o mundo.

E em Portugal, como se sente isso?

Vale a pena lembrar que a subserviência de Portugal aos interesses do imperialismo, hoje evidente na política de direita que o PS, com ou sem D, leva à prática, não difere, no essencial, da dependência do regime fascista a esse mesmo imperialismo. O regime fascista, no plano interno sustentado pelo grande capital e pelos grandes latifundiários, contou sempre, no plano externo, até ao seu último dia de existência, com o apoio dos grandes países capitalistas, designadamente a República Federal Alemã, a Grã-Bretanha, a França e, naturalmente e em primeiro lugar, os Estados Unidos da América – afinal, e isto anda tudo e sempre ligado, os mesmos que apoiaram a contra-revolução de Abril desde o seu primeiro dia de existência. E já agora, lembre-se o que deve ser lembrado, ou seja a outra face das coisas: a União Soviética e os restantes países socialistas foram sempre os mais fiéis apoiantes da resistência ao fascismo e, posteriormente, da Revolução de Abril.


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